El mexicano Ramón volta a Bahia

Quanto mais rezo, mais assombração me aparece. Estava tomando uma gelada na tenda de dona Dora, na praia de Vilas do Atlântico, em Lauro de Freitas, quando vejo à minha frente sentado numa cadeira de praia o mexicano Ramón Alvarez, aquele mesmo camarada que, em 2016, assentou praça aqui em Lauro até a semana santa tocando nos bares e fazendo bicos nas residências como piscineiro. Suponho, pois, que esteja de volta para uma nova temporada.

- Irmão em Cristo, vosmincê aqui de novo, nem acredito - cumprimentei-o.

- De novo e precisando de sua ajuda porque se aqui há crise, no México é bom pior, o novo presidente dos EUA, Donald Trump, está querendo até fazer um muro na fronteira entre os dois países para evitar invasão de nossos hermanos para lá, e ainda quer que a gente banque, os mexicas paguem el muro, fraseou.

- Diria ao amigo que a situação aqui no Brasil também não está para peixe e vejo que sua cuia de queijo está vazia e não conseguiste nada até agora - comentei observando que Ramón pedia adjutórios aos passantes, mesmo sentado à beira mar e tomando uma gelada.

- Já consegui alguma coisa. Não foi muito mas dá pro acarajé e pra gelada. Assinei um contrato para tocar numa barraca de praia até o final do verão e com isso estou garantido, afiançou.

- E onde estás hospedado aqui em Vilas? - questionei.

- Aqui tudo é muito caro. Aluguei uma casinha no Portão, creio de uma parente da finada Mirinha, e como só tenho minha viola, meu sombrero e poucas roupas, pago pouco e fico numa boa.

- É! mas tem o transporte e a possibilidade de sua casinha ser arrombada lá no Portão, área que o povo diz ser muito violenta.

​- Que violenta que nada. Violento é o México. Tô pensando até em trazer minha nieta Romanita para ficar uns dias acá comigo. Estou ensinando ela a cantar e quem sabe pode dar uma palhinha no Galpão num programa para crianças no modelo das chiquititas.

- Taí, seria uma boa, mas, como lhe falei o verão só está pra tubarão e até alguns shows já foram cancelados devido a falta de público sem capilé para pagar 20 dólares só de entrada.

- Seja como for estou bem aqui e até vou lhe convidar pra gente tomar uma gelada já que minha latinha está acabando.

- Você está insinuando que eu que terei de pagar mais uma latinha para o nobre Malaguena! É isso?

- Ora, Sêo Franco, isso não vai abalar suas finanças e ajudar ao próximo não faz parte do seu lema? - questinou.

- Fazer, faz. Mas, para pessoas necessitadas e não para malandros - com licença da palavra - como usted.

- Malandro de coração aberto, de alma bondosa, um cantante que quando diz que é amigo de uma pessoa é amigo de verdade, que não ilude ninguém e que é devoto de Nossa Senhora Guadalupe, portanto, hombre de palavra.

- Não venha com esse lero-lero estilo Gil porque isso não cola comigo. Vou pedir a dona Dora um superlatão para a gente dividir.

- Não dá também pro amigo pedir uma porção de acarajé. Estou com a vontade enorme de comer uns acarajés, pois, desde que voltei para Merida nunca mais saboreei essa delicia baiana.

-Não disse que v tava me embromando. Lhe ofereco um dedo e v quer logo a mão toda.

- Tô com a janta de ayer Sêo Franco e a barriga tá dando unas roncadas terríveis, comentou passando as mãos sobre o ventre.

- E porque ao invés de v está tomando cerveja não gastou o dinheiro com um queijo coalho?

- A gelada, é sempre a gelada. E neste calorão que faz aqui na Bahia, como o povo de acá fala que desce redonda, e eu gostei desse slogan e o coalho ficaria para depois, tanto que o anjo Gabriel mandou o senhor do Céu e aqui está ao meu lado.

Chamei por Geovana, a garçonete filha de dona Dora e pedi um superlatão e uma porção de acarajés dos miudos, no prato, com vatapá, caruru e tudo mais que teriamos direito.

- Não disse. O senhor é um homem abençoado por Deus. Como vai sua esposa, dona Florzinha, aquela outra pessoa bondosa de todo coração?

- Ela está vindo para a praia e daqui a pouco estará aqui. E vem com uma irmã professora que está abonada, com forte capilé, e quem sabe pode até tirar sua barriga da fome.

- Benza Deus! - Ramón falou e ajoelhou-se na areia da praia.

- E como é o nome dessa santa?

- Você já quer saber o nome da professora para ensair seu lero-lero pra cima dela. Não vou lhe dizer nada. Quando ela chegar você pergunta.

Nisso ficamos tomando o superlatão e beliscando o acarajá quando chega Florzinha e a mestra em Geografia paracendo até que iriam para um baile, ambas no estilo Val Marchiore com aqueles bolsas de praia enorme, óculos de grife e lábios pintados.

Apresentei-as a Ramón. Florzinha foi logo dizendo: - Esse já conheço de outros carnavais e acenou para o Mexica dando-o boas vindas.

Depois, Florzinha apresentou sua irmã: - Esta é mi hermana.

- Muchas gracias - respondeu Ramón - dizendo que já ouvira falar nela desde 2016, quando prometera empregá-lo no fábrica de bolos na Serra, diante possibilidade de conhecer o Bacalhau da Barão.

- Ah! o senhor que é o tal do Ramon, el cantante, disse a professora.

- Si, grande mestra, sou yo mismo.

Florzinha interveiro: - Não dê ousadia a ele senão vai querer tirar algum proveito.

- Que é isso, dona Florzinha, só iriamos pedir a ela - yo e Sêo Franco - me colocando no bolo, uma nova rodada de latões e um pratinho de acarajés, pois um anjo do Céu me disse que a bolsa dela está recheada de verdinhas.

- Que verdinhas Sêo Ramón! ganho em real e mal dá pra comprar meus sapatos - sorriu.

Florzinha gargalhou.

- É isso, as verdinhas que falei não sáo dólares. São as notas de R$100,00 do bendito real, as garoupas.

- Olhe Sêo Ramón, essas verdinhas de R$100,00 ganho com muito suor, aulas e aulas, ano a ano. Vá catar cavaco noutro terreiro porque nesse aqui - bateu com a mão na bolsa - você não vai levar nada.

Fiquei só astuciando e dando minhas risadinhas de hiena, o sol forte honrando o verão e bebendo minha gelada.

- Sêo Franco, o mexica dirigiu-se a mim, a professora não é moleza não, não deu-me sequer uma piaba quanto mais uma nota da garoupa.

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