SALVADOR 486 ANOS OU 481 e o menosprezo aos fundad

Salvador completa nesta terça-feira, 29, 468 anos de existência como cidade. Faço essa ressalva porque podeia ser 481 anos como são comemorados os aniversários de Olinda/Recife, Ilhéus, Porto Seguro, São Vicente, Parnaíba e mais 9 sedes de Capitanias Hereditárias criadas pela Corte Portuguesa, 1534/1536. Para a capitania da Bahia veio, em 1536, Francisco Pereira Coutinho, o qual fundou a Vila Velha no Porto da Barra, depois, Vila Velha do Pereira. Para Ilhéus, Jorge de Figueredo Correia; e para Porto Seguro, Pero de Campo Tourinho.

Antes disso, em 1509/1510, os franceses deixaram na Barra o português Diogo Álvares Correia, o qual fundou um povoamento - Vila do Caramuru - entre a Barra e a Graça erguendo uma capela em louvor a Nossa Senhora da Graça, hoje, mosteirinho beneditino, onde está sepultada Catarina Paraguaçu, mulher de Diogo (o Caramuru).

Toda essa história inicial de Savlador, que vai de 1510/1549, foi desconsiderada do ponto de vista da data de fundação da Cidade pelo I Congresso de História, realizado pelo IGHB, em 1949. Os historiadores dediciram que a data de fundação da cidade seria 29 de março de 1549, a chegada da frota de Thomé de Souza na Baía de Todos os Santos, acidente geográfico descoberto em 1º de novembro de 1501.

A decisão dos historiadores levou em conta o Regimento de Almeirin, de 1548, do reinado de Dom João III, que criava uma cidade fortaleza no Atlântico Sul para ser a sede de um Governo Geral para o Brasil.
Entre novembro de 1548 e a chegada de Thomé, 29 de março de 1549, optou-se por esta segunda data ainda que Thomé só tenha desembarcado da nau capitânea Nossa Senhora da Conceição, em 31 de março, e a cidade só começou a ser construida, em maio de 1549.

Primeiro o governador geral se estabeleceu na Vila do Pereira, a essa altura governada pelo filho de Pereira Coutinho, o qual fora morto pelos tupinambás. A partir daí, de posse da planta fortaleza de fundação da cidade, vinda de Portugal e manuseada pelo mestre-de-obras (o arquiteto da época) Luis Dias, durante o mês de abril fizeram a escolha do local mais apropriado para erigir a fortaleza.

Subiram o Caminho do Conselho (atual ladeira da Barra) e chegaram ao platô da atual igreja da Vitória, local muito estreito. Foram mais adiante pela trilha da Mata Atlântica, pelo atual corredor da Vitória, e se depararam com o Outeiro Grande (hoje, Campo Grande), que era muito largo, sem boa linha de tiro na direção do mar. Iam e vinham para a Vila Velha onde dormiam. Dias depois, atingiram o atual Passeio Público e a Praça da Piedade, onde haviam duas aldeias de tupinambás. Tribos pobres, de povos inofensivos, sem armas e que sobreviviam da pesca. A Piedade tinha um bom platô, mas estava distante do mar.

Foram adiante e chegaram ao atual São Bento, onde havia uma outra aldeia tupinambá. E, finalmente, alcançaram um outro outeiro, a atual Praça Municipal ou Thomé de Souza, e Luis Dias considerou o local ideal para erguer a fortaleza. Tinha uma ótima linha de tiro para o mar (onde fica o Elevador Lacerda), o platô permitiria instalar uma porta ao Sul (final da Rua Chile) e outra ao Norte (final da Misericórdia) e Oeste havia um charco (Baixa dos Sapateiros).

Em maio trabalharam na capinagem, roçagem, instalação de paliçadas e em taipas ergueram a sede do governo, a capela de Nossa Senhora d'Aujda e mais casas para a tropa. Em 13 de junho, os jesuitas com Manoel Nóbrega à frente fizeram a primeira procissão da cidade, a Corpus Christi, com tupinambás mirins portando cruzes de pindoba, sem saber o que aquilo significava.

Nascia, assim, a primeira capital do Brasil. Caramuru e sua turma de tupinambás ajudou a erguer a cidade que nasceu multinacional: portugueses, tupinambás, genoseses, espanhóis e homens de cor (negros e árabes) ajudaram na obra, turma que veio na armada de Thomé que tinha de tudo, desde os homens que seriam os gestores da nova cidade a degredados e aventureiros mercenários.

Na capital baiana, mesmo antes de Thomé, já com Caramuru e a tropa de Pereira Coutinho, deu-se a primeira leva de miscigenação na mistura de europeus com tupinambás, seguida depois com a tropa de Thomé (1200 a 1400 homens app) e adiante com a chegada dos negreiros.

Daí que Salvador é, majoritariamente, uma cidade mestiça (70% da população) euro-indo-africana; e tem 14% de negros; e mais 14% de brancos, segundo o IBGE.

A familia mais influente desse periodo colonial foi a de Caramuru/Catarina, uma mistura de tupinambás com portugueses que dominou a Bahia politico e administrativamente por uns 200 anos. Depois, forte influência dos D'Ávila descendentes de Tomé de Souza, uma vez que Garcia, da Casa da Torre (e dois bois) teria sido seu filho bastardo.

A cidade sempre foi ingrata com seus fundadores. Até hoje, não existe um Memorial para Thomé de Souza cujos restos mortais estão sepultados no interior de Portugal, em Rates, e o advogado Ademir Ismerim tenta, há anos, meios de trazer esses restos mortais para a Bahia e erguer um Memorial para Thomé, obviamente abrangente a fundação da cidade - mapas, croquis, gravuras e outros.

Diogo Alvares, o Caramuru, por ignorância histórica, recebeu o nome de uma praça de alimentos no Rio Vermelho, ele que morou na Barra e viveu a vida toda neste biarro e está sepultado na catedral basílica. Não há um monumento na cidade para ele, enquanto tem para Zumbi e caboclos.

A fonte de Catarina Paraguaçu, na Graça, está abandonada. A praça da Graça que deveria se chamar Diogo/Catarina chama-se Dr Paterson. E, mestre Luis Dias continua sendo um ilustre desconhecido. O bispo Pero Fernandes Sardinha tem uma estátua minúscula na Praça da Sé. Manoel da Nóbrega, o jesuita que comandou a primeira procissão do Brasil, tinha uma estatueta em frente a igreja de Nossa Senhora D'Ajuda. Pero de Cóis, nada. Os tupinambás - mayoral Iperu e outros - que ajudaram a fundar a cidade, nada.

A cidade tem memórua curta. Não gosta de cultuar seus antepassados históricos, salvo exceções. O idel seria um monumento as três etnias - tupinambá, européia e africana - simbolizando a fundação da cidade. São Paulo tem o monumento aos bandeirantes. Em várias localidades da Europa existem monumentos aos soldados desconhecidos diante de duas guerras mundiais. É belissima a marca de Roma, da leoa, e da lenda de Rômulo e Rêmulo que cresceram criados por uma loba e passaram a história como fundadores de Roma.

Aqui temos uma das mais antigas lendas do Brasil, a de Caramuru, e cadê o monumento? Nada, zero.

A imagem mais marcante de Salvador é o Elevador Lacerda que tem pouco mais de 100 anos numa cidade de 500 anos. A rua mais antiga da Cidade, a dos Mercadores, Direita do Palácio, virou Chile, no inicio do século. Apagou-se 300 anos de história e a Câmara de Vereadores até hoje não devolve o nome original da cidade.

Santo Antonio, padroeiro original da cidade, também foi destituido dando lugar a Francisco Xavier, um jesuita que teria curado pessoas da peste.

É assim, vão apagando a hisória, trocando a história, criando heróis e heroinas sem herioismo e poucos são aqueles que reclamam. Até uma heroina na Revolta dos Malês inventaram quando se sabe que esse movimento só teve a participação de homens.

Que essa história, com a realidade dos fatos, seja ainda contada. Alguns historiadores já fizeram isso, em parte, mas ainda falta muita coisa a ser colocada em seus devidos lugares.

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